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Rua de S. Roque da Lameira (N15)


 

Há uma estrada,

uma estrada-serpente,

mais aprazível e quente

quando lhe bate o sol,

que leva do Porto

ao Museu do Marão,

à sua colecção de estatuária roqueira,

projecções de rosmaninho

em telas de nuvens,

instalações de ciclópicas hélices

cuja ventania só aproveitava, outrora,

a milhafres e falcões.


 

Ao longo da estrada oleados

tapam lenha e ferro-velho,

ossários de sucata perguntam

ubi sunt?,

hortos rescendem a orvalho,

estufas crivadas de granizo

jazem de bruços,

stands e fábricas de adubo

desfraldam rotas bandeiras

ou números de telefone.


 

Vendedores de melancia e batata,

doçaria conventual, fogaças,

pão de lenha

(do Padronelo, pois claro),

queijadas de Murça

e compotas de Mateus

evadidos de uma pérola esquecida

do cinema neo-realista.


 

Recém estrumados lameiros

onde velhos se ocupam a morrer

brandindo o sacho,

e suas velhas a colher,

rangendo, favas & feijões.


 

Florestas de onde se ergue,

a espaços,

o hórrido grito da moto-serra,

mas sobretudo florestas

que estavam lá

mas já não estão.


 

e de súbito Vila Real,

(snooker no Excelsior e natas na Gomes)

onde mandam, como no resto,

os que lá não estão.

 

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira