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Miragaia sem som
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Falta som neste poema
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e nem o silêncio é silêncio
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(por defeito,
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ou porque uma imagem
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é calada por natureza).
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Quanto à varanda,
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mantém-se forma e função:
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suporte de lençol lavado no
tanque,
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torre de onde se espiam os
vizinhos
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enquanto se barra o pão com
manteiga,
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ou se cospe,
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quando não há melhor diversão
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(e se chegou da escola mais cedo
e é Verão),
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refrescando a careca reluzente
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de algum velhote mais catita.
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Mas um nome,
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esse não tem como ficar:
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nem mesmo o do corpo saído do
banho
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e amado a coberto da manhã.
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O nome da avó herdá-lo-á,
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com sorte, a neta.
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Já o neto, como ia dizendo
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antes de matutar nestes versos
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- Ó Bítor meu filho da puta!!!
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Sobes ou vou chamar o teu pai?!
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Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
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