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Rua Conde de Ferreira (sítio da
antiga Escola Primária)
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No Porto não faltam valas a céu
aberto
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onde se empilham cadáveres de
crianças
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(não podeis vê-las porque o
vento,
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como sempre, os soprou).
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Mas tudo participa de tudo,
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e pensamento, fábula, ficção,
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quem logrará peneirá-los do que
não se vê,
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se o que não se vê
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não passa de tímida, incompleta
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e crudelíssima projecção?
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No jazigo de líquenes
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e cimento escorrido,
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ficou de fora um braço
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com sameiras na mão,
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e da sombra aquilina rolam,
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para o sol, prismáticos berlindes.
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Não tinha então –
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refiro-me à idade inexistente
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que a bala sem trajectória
libertou –
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tantos
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e tão desnecessários adjectivos
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(se bem que nada poupasse
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ou soubesse de economia:
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a tarde era minha eu esticava-a
tanto
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quanto queria).
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O que não compreendo nem perdoo
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é isto: que a propósito do pão
com fiambre
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e do Colacau do lanche, os
outros,
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prematuros se lançando à vala
comum,
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ficassem a ver a merda dos
desenhos animados
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(não me deixando outra escolha
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senão animar os desenhos que iam
costurando,
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no vestíbulo do tempo,
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os andrajos da maioridade).
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Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
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