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Últimos dias de Pã no Porto
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Sopra com inaudita força a
flauta de cana,
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o grande deus Pã,
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no ribeiro devoluto chapinando
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com seus cascos fendidos,
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pondo em fuga libélulas e rãs
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com estranhas mutações
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e pentâmetras pernas.
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O açude é o cadafalso que se
abre
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sob as águas, e as águas
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espumam e estrebucham no seu
leito
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- quanto tempo, pergunto,
suportarão a corrida
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entre o Ipanema e o stand da
Renault?
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O grande deus Pã já não é
grande:
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podeis vê-lo sem rumo e sem tino
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a partir da VCI,
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guiando os rebanhos que já não
há
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não obstante o viço das ervas.
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O grande deus Pã tem a cabeça a
prémio.
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À noite adormece na barraca mais
escondida,
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onde as janelas são altifalantes
furados
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debitando mais alto o tráfego
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que o espondeu das águas
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o troqueu dos seixos, o dáctilo
das margens.
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Não vem longe o dia
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em que os construtores civis
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toparão com seu rasto:
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surpreendê-lo-ão colhendo
framboesas e amoras.
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Seus chifres serão cortados e
suspensos
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na sede da imobiliária, à laia
de troféu,
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e o seu melódico cadáver
dissimulado
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no verso pardo do betão.
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Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
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