VC_21

 

Avestruz na VCI

 

Passai manadas com patas anti-bloqueio,

garrotes pré-tensores, olhos de xénon,

estômagos de explosão,

passai enquanto enfio a cabeça na terra,

na pouca que resta mas acolhe

anémicas papoilas

e subnutridos gafanhotos.

 

Deixai-me com meus renques

de salsa, menta e hortelã.

Pássaros não os ouço,

vejo-lhes o enxame das asas

além, nas ameias de teixos

sempre que buzina um camião.

 

Acossado por rails que reclamam

de quando em quando a cabeça

de um motard,

sitiado pelo asfalto viscoso

de tanta gataria decalcada,

cultivo derreado o meu quintal.

e gritasse agora

nem as toupeiras me ouviriam,

quanto mais as ordens dos anjos.

 

Cultivo este nó que me ata

ao arado, e me desata

de sistemas de som

e habitáculos climatizados.

Este nó que me desliga de vós

mas não de mim,

provisória terra,

derradeiro separador central.

 

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira