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- VELHO PORTO VINHATEIRO
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Fosse este o século do
romantismo,
alvores de novecentos,
quão preciosas seríamos,
nós, as ruínas.
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Como assentaria bem à vereda
atapetada de musgo,
ladeada de arbustos
e córregos discretos,
o género pitoresco.
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Fidalgas
deixariam dançar as saias
no soalho dos líquenes,
ou afundar as botinas
na terra lamacenta.
Olhariam de soslaio
robustos vindimadores nas encostas:
fidalgas herdeiras de caves,
evitando o contacto dos muros,
um temor sempre latente
perante a ameaça de cães corpulentos
após a curva no fim do caminho.
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Mas este não é o século do
romantismo,
o Porto deixou há muito morrer
o camponês dentro de si.
De pitoresco só alguns becos
a jeito para acolher
toda a espécie de lixo,
vielas com charcos infectos,
fezes de bêbado a quem ordenaram
que fosse morrer longe,
detritos de um Porto
que passou à história.
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Nada temam porém os apóstolos
e estetas da modernidade:
nós, ruínas,
temos decerto pela frente
um futuro brilhante:
condomínios fechados
para gente fechada.
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Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
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